A desinformação da extrema-direita no Brasil tem espaço seguro no Telegram


Pouco depois que o ex-presidente Donald Trump foi banido do Twitter no início deste ano, o líder brasileiro fez um apelo a seus milhões de seguidores no site. "Sigam meu canal oficial no Telegram", pediu o presidente Jair Bolsonaro. Desde então, o Telegram, plataforma de mensagens criptografadas e de mídia social comandada por um discreto exilado russo, vem acumulando dezenas de milhões de novos usuários no Brasil. Sua popularidade crescente no país e em outros lugares está sendo alimentada por políticos e analistas conservadores para os quais o aplicativo se tornou o disseminador mais permissivo de conteúdo problemático – incluindo a desinformação – em um ecossistema de mídia social que enfrenta uma pressão crescente para combater as notícias falsas e a polarização.

O WhatsApp continua sendo de longe a plataforma de mensagens dominante no Brasil, mas o Telegram vem crescendo rapidamente. Até agosto, havia sido instalado em 53 por cento de todos os smartphones do país, contra 15 por cento dois anos antes, segundo um relatório. Fundado em 2013, o Telegram se tornou uma ferramenta cobiçada por ativistas, dissidentes e políticos – muitos em nações repressivas como Irã e Cuba – para que pudessem se comunicar privadamente. Mas autoridades e especialistas do governo brasileiro temem que o aplicativo acabe se tornando um poderoso vetor de mentiras e animosidades antes das eleições presidenciais de 2022 – momento político tenso no país.

Bolsonaro, com suas perspectivas de reeleição ameaçadas por sua popularidade decrescente, seguiu a cartilha de Trump e começou a semear dúvidas sobre a integridade do sistema de votação do Brasil, levantando a possibilidade de um resultado fraudado. Sua alegação infundada de que as urnas eletrônicas serão manipuladas irritou a oposição e os principais juízes do país, que dizem que a abundância de desinformação na política brasileira está causando danos duradouros à sua democracia.

"Sabemos que a desinformação sistêmica é produzida por estruturas muito bem organizadas e financiadas", afirmou Aline Osório, secretária-geral do Tribunal Superior Eleitoral, que lidera um programa contra a desinformação. Segundo ela, o tribunal estabeleceu relações de trabalho construtivas com executivos de outras empresas de mídia social que se tornaram veículos para campanhas de desinformação. Mas suas tentativas de contactar o Telegram, que tem sede em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, não foram bem-sucedidas. "O Telegram não tem representantes no Brasil, e isso dificultou a criação de uma parceria como fizemos com outras plataformas."

O Telegram não respondeu a um pedido de entrevista. As perguntas da imprensa são enviadas por meio de um bot na plataforma.

Especialistas dizem que o conteúdo e o debate políticos migraram substancialmente para o Telegram nos últimos anos no Brasil e em outros países, em grande parte por causa da capacidade do aplicativo de reproduzir conteúdo em massa. Os chats em grupo podem incluir até 200 mil usuários, exponencialmente mais do que o limite de 256 do WhatsApp. O WhatsApp restringiu a capacidade dos usuários de encaminhar mensagens depois de ter sido criticado no Brasil e em outros lugares pelo papel que desempenhou em campanhas de desinformação durante as últimas eleições.

Além dos chats em grupo, o Telegram hospeda canais – ferramenta de comunicação em massa unidirecional usada por corporações, artistas e políticos para distribuir mensagens, vídeos e arquivos de áudio. O canal de Bolsonaro ultrapassou um milhão de seguidores nas últimas semanas, colocando-o entre os políticos mais seguidos do mundo na plataforma.

Embora aplicativos rivais tenham adotado políticas mais rigorosas e claramente definidas sobre abuso e desinformação, as diretrizes do Telegram são vagas, e o serviço adota uma abordagem não intervencionista no conteúdo de chats individuais e em grupo. Isso faz dele um espaço seguro para figuras incendiárias, incluindo políticos, que foram banidos de outras plataformas. No Brasil, as contas no Twitter e no Instagram de um parlamentar, Daniel Silveira, e de um jornalista conservador, Allan dos Santos, foram suspensas como parte de uma investigação do STF sobre campanhas de desinformação que incluíam ameaças contra juízes. Mas o Telegram continua sendo um portal para seus seguidores. Isso permitiu que dos Santos arrecadasse fundos para sua defesa jurídica e chamasse a justiça que o baniu de outros sites de "psicopata".

"A rede está claramente se beneficiando da remoção de usuários de outras plataformas. Os políticos notaram que ela não faz nenhum esforço para remover contas, por isso está se tornando uma rede atraente para grupos mais radicais", disse sobre o Telegram, Fabrício Benevenuto, professor de ciência da computação da Universidade Federal de Minas Gerais.

Farzaneh Badiei, especialista em governança da internet que publicou um artigo sobre o Telegram na Escola de Direito de Yale este ano, ressaltou que o fundador do Telegram, Pavel Durov, não estava disposto a lidar significativamente com o problema da desinformação que se torna viral: "Sua abordagem é muito desorganizada e muito opaca. Não vemos algo sistêmico para resolver esses problemas."

Durov deixou a Rússia em 2014 depois de lutar contra as tentativas do governo de censurar conteúdo na rede social que fundou, a VKontakte. Ele declarou que projetou o Telegram como um meio ultraprivado de comunicação baseado na perseguição que diz ter sofrido em seu país natal.

O Twitter, o Facebook, o WhatsApp e o YouTube desempenharam um papel fundamental na vitória impressionante de Bolsonaro em 2018, e o líder de extrema-direita continuou a confiar fortemente nas mídias sociais para energizar sua base, atacar adversários e afirmar falsidades que não são contestadas. Nos últimos meses, porém, as plataformas que permitiram a ascensão de Bolsonaro começaram a controlar suas alegações falsas ou enganosas sobre o coronavírus. As empresas de mídia social o puseram em estado de alerta ao derrubar vários vídeos e tuítes que consideravam perigosos.

Bolsonaro e seus seguidores protestaram contra essas remoções, declarando-as formas de censura. Em setembro, ele argumentou que a desinformação era agora uma característica permanente da política, classificando-a como uma questão trivial, e arrematou: "As fake news fazem parte da nossa vida. Quem nunca contou uma mentirinha para a namorada?"

O Telegram tem atraído um escrutínio crítico no Brasil que vai além de seu papel disruptivo na política. Investigações de organizações jornalísticas descobriram que o aplicativo estava hospedando redes ilegais de armas e permitindo a distribuição de pornografia infantil.

Os legisladores brasileiros estão debatendo uma lei que exigiria que plataformas como o Telegram tivessem representação legal no Brasil ou se arriscariam a ser banidas. No entanto, os usuários facilmente contornam tais proibições em países como o Irã e a Rússia usando software que permite disfarçar sua localização.

Diogo Rais, professor da Universidade Mackenzie, em São Paulo, e fundador do Instituto Liberdade Digital, chamou o bloqueio de aplicativos de uma "medida drástica" e ineficaz. "Precisamos lidar com desafios digitais percebendo que nossas leis são de 2009 e limitadas ao nosso território físico. O mundo digital não tem esse limite. O desafio é global."

Fonte de matéria: The New York Times

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