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sábado, 2 de outubro de 2021

Saddam Hussein ordenou que fosse escrito um Alcorão com seu próprio sangue; Conheça a estranha história

No fim da década de 1990, Saddam Hussein contatou um calígrafo com um pedido estranho. O então presidente do Iraque, que governou o país de 1979 até a invasão dos EUA em 2003, lhe deu uma incumbência: criar uma cópia do Alcorão (ou Corão, o livro sagrado para os muçulmanos), mas com seu próprio sangue, no lugar da tinta comum. Segundo relatos da época, todas as semanas, regularmente, durante dois anos, Saddam oferecia seu braço a uma enfermeira para tirar sangue suficiente para cumprir seu propósito.

Não se sabe se isso — assim como muitos outros detalhes dessa história — são de fato verdade, mas a versão mais difundida na época dizia que 24 litros de sangue do ex-líder iraquiano foram usados para escrever 605 páginas divididas em 114 capítulos (ou suras) que compõem o Corão. Depois de concluída, a obra foi apresentada "com grande alarde", conta Joseph Sassoon, diretor do Centro de Estudos Árabes Contemporâneos da Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos, e autor do livro "O Partido Baath de Saddam Hussein: Por dentro de um regime autoritário" à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC.

"Saddam estava muito orgulhoso e tirou muitas fotos com este Alcorão", acrescenta Samuel Helfont, professor de Estratégia e Política da Escola de Pós-Graduação Naval na Califórnia, também nos Estados Unidos
.
 
A obra (separada por páginas) foi exibida diante de um público seleto em uma grande vitrine na mesquita de Bagdá, então conhecida como a "Mãe de todas as batalhas", uma edificação com quatro minaretes em forma de mísseis Scud também construída a mando de Saddam. A TV e a imprensa iraquianas — bem como alguns veículos de comunicação internacionais — cobriram o evento. Segundo eles, o então líder iraquiano encomendou essa edição especial para agradecer a Deus por mantê-lo seguro depois de "conspirações e perigos" em sua longa carreira política.

"Minha vida tem sido atormentada por perigos em que eu deveria ter perdido muito sangue... mas como sangrei muito pouco, pedi a alguém que escrevesse as palavras de Deus com meu sangue em agradecimento", disse Saddam Hussein em uma carta publicada na imprensa oficial. Há quem diga que ele fez isso porque estava passando por uma crise pessoal; outros para agradecer a Deus por ter salvado seu filho Uday, que sobreviveu a um atentado em dezembro de 1996. Mas Sassoon acredita que as razões foram diferentes.

Falsa religiosidade

O Alcorão de Sangue "é uma amostra de como os ditadores estão dispostos a fazer de tudo para servir aos seus propósitos, incluindo a religião", explica o acadêmico. "Na década de 1990, no fim da guerra com o Irã, Saddam percebeu que a religiosidade do Irã continuaria a se espalhar pelo Iraque. Ele falou abertamente que o partido Baath estava começando a perder sua juventude para o fundamentalismo", explica. Irã e Iraque professam correntes diferentes do islamismo, muitas vezes em atrito. O primeiro é majoritariamente xiita, enquanto o segundo, sunita.

"Não acho que ele (Saddam) realmente ficou mais religioso. Ele fingiu que era por motivos políticos." "Ele mandou construir mesquitas, uma universidade muito importante ou o que ele chamava de Instituto para o Ensino do Alcorão, e é claro que foi uma ideia brilhante do seu ponto de vista, porque ele percebeu que se pudesse agregar membros do partido, que aprendessem a explicar o Alcorão da maneira que lhe convinha como líder, então seria muito mais fácil para ele controlar as massas com a linguagem da religião."

Outro exemplo dado pelo acadêmico de como, em sua visão, Saddam Hussein mudou seu comportamento para atingir seus objetivos diz respeito à sua postura em relação às mulheres. "Quando chegou ao poder em 1968, Saddam ria das tradições, pressionava para que as mulheres votassem, pelos direitos dos trabalhadores e pela educação", diz.


"Ele era um verdadeiro defensor do papel da mulher na sociedade, mas em 1990 mudou de tom e passou a dizer que o lugar da mulher era o lar, para ter o maior número de filhos possível", explica o acadêmico. A mudança se deveu, segundo Sasson, a dois motivos: "o fervor religioso se ampliava e o alto índice de desemprego, motivado pela guerra do Kuwait, ao fim do qual morreram 700 mil soldados". Era do interesse de Saddam liberar os empregos que as mulheres haviam assumido durante o conflito (como aconteceu na Europa após a Primeira Guerra Mundial) para reduzir o desemprego e aliviar a tensão social, enumera.

24 litros de sangue?

O sangue "foi misturado a algumas substâncias químicas para que pudesse ser usado como tinta", explica Helfont à BBC News Mundo. Sassoon acha possível que o ex-líder iraquiano tenha contribuído com uma parte, considerando o volume necessário para escrever um texto de tantas páginas. Se levarmos em conta que um homem saudável pode doar até 470 mililitros quatro vezes por ano, chegar a esse total em um período de dois ou três anos como diz a versão oficial é impossível. Além disso, "Saddam tinha muitas fobias", diz o especialista. Como exemplo, Helfont diz que o ex-líder iraquiano não costumava apertar a mão de quem o visitava no palácio ou abraçá-los da maneira tradicional.

"Ele estava sempre com medo de ficar gripado, e quando ele ia para um jantar ou uma recepção, não comia ou bebia qualquer coisa que era oferecida a ele. Saddam tinha o seu próprio chef do palácio e um laboratório que analisava tudo. Seu medo era ser envenenado", explica. "Portanto, não posso dizer categoricamente sim ou não, mas as chances de ele ter doado tanto sangue são muito pequenas."

Grande dilema

Após a queda de Saddam Hussein em 2003, o Alcorão de Sangue foi mantido trancado à chave, protegido por três portas abobadadas dentro da mesma mesquita rebatizada de "Mãe de Todas as Cidades" para apagar sua associação com o ex-líder iraquiano.

Cada página foi colocada em uma caixa de vidro à prova de balas. São necessárias três chaves para chegar ao Alcorão e elas não estão armazenadas no mesmo lugar. "Tenho uma, o chefe de polícia da região tem outra e há um terceiro em outra parte de Bagdá", disse a pessoa que atuou como guardiã do texto após a invasão dos Estados Unidos a um jornalista do jornal britânico The Guardian quando este pediu para ver a obra em 2010. "Tem que haver uma decisão do comitê para deixá-lo entrar", acrescentou ao repórter, negando-lhe acesso.

O calígrafo Abbas Shakir Joudi deixou o Iraque e até pelo menos uma década atrás morava no estado da Virgínia, nos Estados Unidos. Mas embora muitos monumentos em homenagem a Saddam tenham sido removidos e os nomes de vários edifícios associados a ele tenham sido alterados para apagar seu legado, o livro, sendo sagrado, representa um dilema. "Ele está em um limbo teológico", diz Helfont à BBC News Mundo. "Por um lado, é considerado blasfemo pela maioria dos estudiosos religiosos (o sangue é considerado impuro, uma vez fora do corpo). Não existe tal precedente na história islâmica", explica.

"Por outro lado, na tradição islâmica, o Alcorão é a palavra de Deus, então você não pode destruí-lo", ressalva. Por enquanto, o melhor parece ser deixá-lo onde está: por não estar à vista, vai perdendo relevância, na opinião do especialista.

Onde está o Alcorão?


Mas o livro ainda se encontra no mesmo local de outrora, ou seja, na mesquita de Bagdá?

Os últimos relatos de quem teve acesso ao texto e que confirmam que pelo menos algumas páginas estavam ali são de pelo menos 17 ou 18 anos atrás, pouco depois da chegada das forças americanas ao Iraque. Alguns dizem que o livro foi vendido em segredo, possivelmente para a Arábia Saudita. Outros acreditam que está com uma filha de Saddam, que mora na Jordânia. Mas não há prova disso.

Fonte de matéria: BBCNews