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domingo, 22 de novembro de 2020

Forma de educação brasileira reforça o racismo e apaga os heróis negros da história do país



O soldador foi levado por dois seguranças brancos (um deles, policial militar) de um supermercado da rede francesa Carrefour em Porto Alegre, ao estacionamento da loja. Ali, foi espancado até morrer. Análises iniciais dos departamentos de Criminalística e Médico-Legal do Instituto-Geral de Perícias (IGP) do Rio Grande do Sul apontam asfixia como provável causa da morte de João Alberto, mas uma conclusão definitiva depende de exames laboratoriais em andamento.

O episódio foi comparado ao caso de George Floyd, estrangulado em maio deste ano nos Estados Unidos por um policial branco. A morte de Floyd deu origem a manifestações em todo o mundo com a campanha "Vidas negras importam", que voltou à tona no Brasil a partir do que aconteceu em Porto Alegre.

João Alberto teria sido levado ao estacionamento por algum incidente com outros funcionários do supermercado, mas os detalhes ainda não foram esclarecidos, segundo disse a delegada Roberta Bertoldo, responsável pelo caso, ao portal UOL.

Os dois seguranças estão presos preventivamente, enquanto testemunhas estão sendo ouvidas como parte das investigações em curso, que apura se o crime teve motivação racista, como denunciaram os protestos realizados por conta do caso.

A Organização das Nações Unidas (ONU) disse em um comunicado que "a violenta morte de João, às vésperas da data em que se comemora o Dia da Consciência Negra no Brasil, é um ato que evidencia as diversas dimensões do racismo e as desigualdades encontradas na estrutura social brasileira".

No Twitter, o presidente global do Carrefour, Alexandre Bompard, afirmou que "meus valores e os valores do Carrefour não compactuam com racismo e violência", ressaltando ainda que as imagens da agressão "são insuportáveis".

Marina Pereira de Almeida Mello, doutora em Antropologia Social e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que o racismo implica na crença de que as diferenças humanas, do ponto de vista físico, devem ser naturalmente hierarquizadas.

"É uma ideologia de exclusão, ao pressupor uma classificação dos diferentes, pautada na ideia de superioridade e de inferioridade", afirma Mello.

No Brasil, diz a especialista, prevalece o que o sociólogo Oracy Nogueira [1917-1996] identificou como um "preconceito de marca", ou seja, uma pessoa é discriminada conforme suas características físicas: o tom da pele, o desenho do nariz e dos lábios, a natureza do cabelo, os gestos, o sotaque.

Isso é diferente do que ocorre, por exemplo, nos Estados Unidos, onde prevalece um "preconceito de origem": uma pessoa é identificada como negra se pertence a uma família negra.

De acordo com Mello e com historiadoras e pedagogas ouvidas pela BBC News Brasil, a educação tem um papel crucial na perpetuação e no combate ao racismo no país.

"A escola deve desconstruir o ideal do homem europeu e cristão perfeito, naturalmente superior, exemplo do bem, da beleza e da verdade", diz Mello.

"Porque esta lógica implica que todos os outros seres, classificados como amarelos, vermelhos ou pretos, têm sua humanidade diminuída, imperfeita, o que justificaria a sua dominação, exploração e até mesmo a sua morte."

Apesar de mudanças nas leis, 'escola ainda perpetua preconceitos'

A lei 10.639, sancionada em janeiro de 2003 no Brasil, tornou obrigatório no ensino fundamental e médio o estudo da história e cultura afro-brasileira.

Ficou estabelecido que os alunos devem aprender a respeito da história da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra e o papel do negro na formação da sociedade nacional.

Esta seria a base de uma educação antirracista: valorizar a identidade e a trajetória dos diferentes povos que formam o país, em vez de tomar a visão do colonizador como a dominante.

Neste sentido, a lei 11.645, de março de 2008, por sua vez, acrescentou à legislação a obrigatoriedade do ensino da cultura e história indígenas.

Ambas as leis alteraram, assim, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), que regulamenta o sistema educacional público ou privado do Brasil da educação básica ao ensino superior.

Mas, quase 18 anos depois de sancionada a primeira lei, os livros escolares ainda reduzem a história dos negros no país à época da escravidão, retratando-os como coadjuvantes passivos, incapazes de alterar o próprio destino, dizem os especialistas ouvidos pela reportagem.

"A escola, lugar tão relevante de socialização e construção dos significados, ensina que negros são descendentes de escravos, não de pessoas comuns que foram escravizadas, sequestradas da sua terra natal", afirma Mello.

"Eles são sempre representados de forma humilhante, a partir de estereótipos de feiura, rudeza, ignorância, primitivismo e agressividade."

Para Sherol dos Santos, mestre em História e professora da rede estadual do Rio Grande do Sul, trata-se de uma descrição que afasta não só o interesse pela cultura negra, mas cria uma rejeição.

"Que tipo de identificação você, uma criança, vai querer criar com um povo retratado dessa maneira?", diz Sherol, especialista em escravidão e territórios quilombolas.

É na escola que a criança irá experimentar a igualdade e aprender a lidar com a diversidade, contribuindo para a passagem do espaço privado para o coletivo.

Uma visão eurocêntrica da história do Brasil, no entanto, cria uma tensão racial entre os alunos, que tendem a se aproximar da cultura ou do fenótipo europeu, desprezando as suas raízes africanas.

Para especialistas, é fundamental que os educadores mostrem que todas as raças presentes no Brasil têm e tiveram importâncias iguais na formação da nossa história.

"Se o aluno entender o processo histórico que desencadeou a desigualdade entre negros e brancos, ele não vai reforçar o preconceito", diz Mônica do Amaral, professora do Diversitas - Núcleo de Estudos das Diversidades, das Intolerâncias e dos Conflitos da Universidade de São Paulo (USP).

"É preciso explicar aos alunos brancos que seus privilégios têm uma origem histórica, que nada tem a ver com competência, capacidade intelectual superior. Mas com condições desiguais de acesso aos bens culturais e materiais".

'Personagens negros são apagados dos currículos escolares'

O Brasil ainda se apresenta ao mundo como uma democracia racial, como se fosse o resultado de uma mistura harmoniosa de raças, diz Heloise Costa, mestre em relações étnico-raciais e professora de Língua Portuguesa, o que faz com que o combate ao racismo não seja uma prioridade no país.

"A nossa educação formal fortalece a ideia de uma humanidade branca universal, que nada mais é do que o olhar europeu sobre o mundo."

Com isso, os currículos escolares omitem diversos personagens negros relevantes para a história nacional. "Os africanos e indígenas não deram simplesmente uma contribuição ao país, eles são a base da nossa cultura", diz Sherol dos Santos.

Psicanalista e pesquisadora das questões étnico-raciais há mais de 15 anos, Mônica do Amaral identificou que a expressão cultural por meio da música, mais especialmente do hip hop, era capaz de gerar reconhecimento e autovalorização entre jovens negros.

Autora de O que o rap diz e a escola contradiz: um estudo sobre a arte de rua e a formação da juventude na periferia de São Paulo (Alameda Editorial, 2017), ela afirma ter se interessado pela pauta antirracista ao conversar com crianças e jovens negros.

"Percebi o sofrimento deles, o quanto se sentiam diminuídos, rejeitados, além de serem vítimas de perseguição policial. A partir do acolhimento familiar e escolar dirigido às crianças e jovens que sofrem preconceito, é possível fortalecê-las afetivamente e psiquicamente, para lutar pelo reconhecimento pessoal e coletivo, cultural e religioso."

"O meu trisavô, português, deixou anotado em um livro de contabilidade que destinava uma de suas fazendas a uma escrava liberta, com quem havia tido filhos", diz Amaral. Por escrito, ele advertiu que "ninguém ousasse torná-los escravos ou subjugá-los".

"Quando levantei a hipótese de que poderíamos ser descendentes diretos deste ramo da família, um dos meus tios se sentiu muito ofendido", diz Amaral, pesquisadora da Faculdade de Educação da USP.

É difícil entender as razões que levam alguém a ter orgulho da sua ascendência portuguesa, holandesa, espanhola, italiana ou alemã, e repulsa pela sua origem africana, afirma.

"Principalmente quando sabemos que a mestiçagem brasileira provém, na maioria, de estupros de mulheres negras ou indígenas por homens brancos. Mas essas questões não são tratadas na escola."

Em História, diz Heloise Costa, os alunos não conhecem, por exemplo, a real dimensão do Quilombo dos Palmares, que ocupava uma área próxima ao tamanho de Portugal.

"Aprende-se pouco sobre Zumbi e Dandara, que governaram este quilombo, e sabe-se menos ainda sobre figuras importantes da história da resistência negra no país, como Francisco José do Nascimento, o 'Dragão do Mar', que ajudou o Ceará a se tornar o primeiro Estado do país a abolir a escravidão, em 1884, e Tereza de Benguela, que governava o Quilombo do Piolho, no Mato Grosso, por meio de um sistema de parlamento", diz ela.

Fonte de matéria: BBCnews. Novo título: jmdc

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